terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

o catador (Manoel de Barros)




Um homem catava pregos no chão.
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado,
ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais - o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônios inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar
pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter.


Tratado geral das grandezas do ínfimo, Editora Record - 2001, pág. 43

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

mês de junho(Giovanni Lucas)



A PREVISÃO MÉDIA
PARA QUE O IMPREVISTO
ACONTEÇA,
É MEADOS
DO FINAL DO
MÊS DE MAIO.
MAS QUIÇA
ESTOU EU PRONTO
PARA O LAPSO
QUE MUDARÁ NOSSAS VIDAS

E COMO
(NÃO) SOU O LOBO
QUE VIVE
A NOITE A CAÇAR.

SERÁ,
E DEVERAS
QUE SEJA ASSIM,
QUE AS COISAS
ACONTEÇAM!
ATÉ
QUE A SOLIDÃO
ME DEIXE
ENFIM


_o poeta é um fingidor!!!

sábado, 17 de fevereiro de 2007

sem título (e.e.cummings)



nalgum lugar em que eu nunca estive,alegremente além
de qualquer experiência,teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos,nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente,misteriosamente)a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado,eu e
minha vida nos fecharemos belamente,de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade:cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre;só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva,tem mãos tão pequenas




( tradução: Augusto de Campos )

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

atroz ( Giovanni Lucas)


com a força de um esporro
e depredada amargura
acontece a poesia

ninguém limita
nem imagina
o vasto
tamanho dela

tal qual
a dimensão de voz
tal qual a dimensão
ilícita,

avante da letra
imensa e vai
se esvai

ninguém entende
ignoras
mas a poesia
caminha,
e parte
até a parte
em que existe
voz




_com a inspiração de Gullar abaixo.


15 de fevereiro de 2007, 2:10AM

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Não-coisa(Ferreira Gullar)




O que o poeta quer dizer
no discurso não cabe
e se o diz é pra saber
o que ainda não sabe.

Uma fruta uma flor
um odor que relume...
Como dizer o sabor,
seu clarão seu perfume?

Como enfim traduzir
na lógica do ouvido
o que na coisa é coisa
e que não tem sentido?

A linguagem dispõe
de conceitos, de nomes
mas o gosto da fruta
só o sabes se a comes

só o sabes no corpo
o sabor que assimilas
e que na boca é festa
de saliva e papilas

invadindo-te inteiro
tal do mar o marulho
e que a fala submerge
e reduz a um barulho,

um tumulto de vozes
de gozos, de espasmos,
vertiginoso e pleno
como são os orgasmos

No entanto, o poeta
desafia o impossível
e tenta no poema
dizer o indizível:

subverte a sintaxe
implode a fala, ousa
incutir na linguagem
densidade de coisa

sem permitir, porém,
que perca a transparência
já que a coisa é fechada
à humana consciência.

O que o poeta faz
mais do que mencioná-la
é torná-la aparência
pura — e iluminá-la.

Toda coisa tem peso:
uma noite em seu centro.
O poema é uma coisa
que não tem nada dentro,

a não ser o ressoar
de uma imprecisa voz
que não quer se apagar
— essa voz somos nós.




Poema extraído dos “Cadernos de Literatura Brasileira”, editados pelo Instituto Moreira Salles — São Paulo, nº 6, setembro de 1998, pág. 77.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

ai garupa (arnaldo baptista)

é uma canção
que fala de você
que me reduz o traço
que me arrebenta o aço
eu passo,
passo pelo corredor numa motocicleta
rasgando todo veludo vermelho do chão
sai chão, sai medo
vai giro vai
a velocidade é a sobremesa
da noitada vulgar
de fazer amor na areia
ai garupa,
deixa essa estrada passar
tenho medo eu cuspo em tudo
só não cuspo no chão e no violão
se me agrupo
deixa essa estrada passar
nosssos elmos vasos comunicantes
podem um dia se beijar
eu passo,
passo pelo corredor numa motocicleta
rasgando todo veludo vermelho do chão
vai, garupa
deixa essa estrada passar
se o momento já se foi
eu ainda não acabei.



_faixa n. 10 do cd Let it Bed de Arnaldo Baptista (2002)