quarta-feira, 16 de abril de 2008
quarta-feira, 18 de julho de 2007
terça-feira, 12 de junho de 2007
A letra A(Nando Reis)

A letra A do seu nome
Abre essa porta e entra
Na mesma casa onde eu moro
Na mesa que me alimenta
A telha esquenta e cobre
Quando de noite ela deita
A gente pensa que escolhe
Se a gente não sabe inventa
A gente só não inventa a dor
A gente que enfrenta o mal
Quando a gente fica em frente ao mar
A gente se sente melhor
A abelha nasce e morre
E a cera que ela engendra
Acende a luz quando escorre
Da vela que me orienta
Apenas os automóveis
Sem pernas se movem e ventam
Certeza é o chão de um imóvel
Prefiro as pernas que me movimentam
A gente movimenta o amor
A gente que enfrenta o mal
Quando a gente fica em frente ao mar
A gente se sente melhor

sexta-feira, 1 de junho de 2007
Bola Sete(Manoel de Barros)

Bola Sete não botava movimento.
Era incansável em não sair do lugar.
Igual o caranguejo de Buson que foi encontrado
de manhã debaixo do mesmo céu de ontem.
Pra compensar tinha laia de poeta.
Dava qualidades de flor a uma rã
Dava às pessoas qualidades de água.
Isso ele fazia com letras, não precisava se mover.
Onde estava era ele, a manhã e sua garças;
era ele, o acaso e suas cores; era ele, o riacho e suas
margens; era ele, o horizonte e suas nuvens. Por aí.
Passarinhos brincavam nas paisagens de sua janela.
O mundo era perto.
Bastava estender as mãos que chegava no fim do
mundo.
Bola Sete não botava movimento.
Era um sujeito desverbado que nem uma oração
desverbada.
_O Fantástico amante da natureza...
Era incansável em não sair do lugar.
Igual o caranguejo de Buson que foi encontrado
de manhã debaixo do mesmo céu de ontem.
Pra compensar tinha laia de poeta.
Dava qualidades de flor a uma rã
Dava às pessoas qualidades de água.
Isso ele fazia com letras, não precisava se mover.
Onde estava era ele, a manhã e sua garças;
era ele, o acaso e suas cores; era ele, o riacho e suas
margens; era ele, o horizonte e suas nuvens. Por aí.
Passarinhos brincavam nas paisagens de sua janela.
O mundo era perto.
Bastava estender as mãos que chegava no fim do
mundo.
Bola Sete não botava movimento.
Era um sujeito desverbado que nem uma oração
desverbada.
_O Fantástico amante da natureza...
quarta-feira, 25 de abril de 2007
Come Together(The Beatles)

Aqui vem o velho Flat Top
Ele vem gingando lentamente
Ele tem olhos mágicos
Ele quer cilindros santos
Ele tem cabelos até seu joelho
Tem que ser um cômico,
ele simplesmente faz o que lhe agrada
Ele não usa nenhuma graxa no sapato
Ele tem futebol nos dedos
Ele tem dedo de macaco
Ele atira em garrafa de coca cola
Ele diz que eu o conheço, você me conhece
Uma coisa que eu posso dizer pra você
é que você tem que ser livre
Venha junto
Agora mesmo
Em cima de mim
Ele ensacola produção
Ele tem botas de morsa
Ele tem as costeletas da Ono
Ele é uma invasor espinhal
Ele tem pés abaixo do seu joelho
Abraça você na poltrona dele,
você pode sentir a doença dele
Venha junto
Agora mesmo
Em cima de mim
Ele vai na montanha-russa
Ele recebe o aviso prévio
Ele tem água barrenta
Ele é um filtro de feitiço
Ele diz um e um e um é três
Tem que ser de boa aparência
porque ele é tão difícil de ver
Venha junto
Agora mesmo
Em cima de mim
.traduzida por que quis mas nem
precisava,
poesia canção?
o que quiser seu coração!
rss...blasé!
Ele vem gingando lentamente
Ele tem olhos mágicos
Ele quer cilindros santos
Ele tem cabelos até seu joelho
Tem que ser um cômico,
ele simplesmente faz o que lhe agrada
Ele não usa nenhuma graxa no sapato
Ele tem futebol nos dedos
Ele tem dedo de macaco
Ele atira em garrafa de coca cola
Ele diz que eu o conheço, você me conhece
Uma coisa que eu posso dizer pra você
é que você tem que ser livre
Venha junto
Agora mesmo
Em cima de mim
Ele ensacola produção
Ele tem botas de morsa
Ele tem as costeletas da Ono
Ele é uma invasor espinhal
Ele tem pés abaixo do seu joelho
Abraça você na poltrona dele,
você pode sentir a doença dele
Venha junto
Agora mesmo
Em cima de mim
Ele vai na montanha-russa
Ele recebe o aviso prévio
Ele tem água barrenta
Ele é um filtro de feitiço
Ele diz um e um e um é três
Tem que ser de boa aparência
porque ele é tão difícil de ver
Venha junto
Agora mesmo
Em cima de mim
.traduzida por que quis mas nem
precisava,
poesia canção?
o que quiser seu coração!
rss...blasé!
quarta-feira, 18 de abril de 2007
Nossos Comerciais(Rogério Skylab)

Um minuto pros nossos comerciais
__ está aí o que eu mais queria.
Aumentem o volume ! Façam silêncio !
Esse é um novo tempo.
Espaço intermediário entre o que foi
e o que vai ser ainda,
estamos no coração do momento.
Aumentem o volume ! Façam silêncio !
Essa é a terra de ninguém.
Neles eu me reconheço
sem identidade, sem sexo e sem nome.
Aumentem o volume !
Façam silêncio !
São os nossos comerciais.
Rápidos, coloridos e selvagens.
.É, o famoso cantor Skylab lançou um livro com suas poesias.
Se chama "Debaixo das Rodas de um Automóvel" lançado pela Rocco.
__ está aí o que eu mais queria.
Aumentem o volume ! Façam silêncio !
Esse é um novo tempo.
Espaço intermediário entre o que foi
e o que vai ser ainda,
estamos no coração do momento.
Aumentem o volume ! Façam silêncio !
Essa é a terra de ninguém.
Neles eu me reconheço
sem identidade, sem sexo e sem nome.
Aumentem o volume !
Façam silêncio !
São os nossos comerciais.
Rápidos, coloridos e selvagens.
.É, o famoso cantor Skylab lançou um livro com suas poesias.
Se chama "Debaixo das Rodas de um Automóvel" lançado pela Rocco.
sexta-feira, 6 de abril de 2007
letra(Régis Bonvincino)

Nine out of ten computers are infected
Leminski morreu
do uso contínuo
de um coquetel
de álcool, cigarro e drogas
às vezes
de álcool puro e Pervitin
pupilas dilatadas para encarar o nada
às vésperas da morte
fétido
camiseta cavada e chinelos
trapos a pele
verde como vômito
arranhando o violão e traduzindo Beckett
getting a tan without the sun
que o futuro o disseque
(...numa outra década,
guerrilha nas favelas,
Kaetán morreu de uma overdose
de dólares
êxtase de cheques
abanando o leque
um séquito de adeptos)
nine out of ten computers...are infected
in Página órfã lançado pela Martins Fontes
Leminski morreu
do uso contínuo
de um coquetel
de álcool, cigarro e drogas
às vezes
de álcool puro e Pervitin
pupilas dilatadas para encarar o nada
às vésperas da morte
fétido
camiseta cavada e chinelos
trapos a pele
verde como vômito
arranhando o violão e traduzindo Beckett
getting a tan without the sun
que o futuro o disseque
(...numa outra década,
guerrilha nas favelas,
Kaetán morreu de uma overdose
de dólares
êxtase de cheques
abanando o leque
um séquito de adeptos)
nine out of ten computers...are infected
in Página órfã lançado pela Martins Fontes
segunda-feira, 26 de março de 2007
obrigado!(Giovanni Lucas)
Há de restaurar a força
assim como todo fogo
há de renovar todo dia
como a promessa
que um dia
se fez
Eternamente
o sumiço
dói e creio que
em breve irei
me recompor
Deixa pra lá
todo este
pó
que sou
Deixa pra lá todos
os meus desejos
mais terríveis
e confusos
junto com as vontades
irrelevantes
que não vão me fazer
bem
Obrigado,
muito obrigado!
É bom
é doce ver tudo claro
E é claro entender tudo
como é.
Obrigado!
tantas vezes
Até a vez
em que vou
ferozmente
embora desta...
Incompleta mudança
que devo aproximar
desde já
"Estou indo embora!"
.
assim como todo fogo
há de renovar todo dia
como a promessa
que um dia
se fez
Eternamente
o sumiço
dói e creio que
em breve irei
me recompor
Deixa pra lá
todo este
pó
que sou
Deixa pra lá todos
os meus desejos
mais terríveis
e confusos
junto com as vontades
irrelevantes
que não vão me fazer
bem
Obrigado,
muito obrigado!
É bom
é doce ver tudo claro
E é claro entender tudo
como é.
Obrigado!
tantas vezes
Até a vez
em que vou
ferozmente
embora desta...
Incompleta mudança
que devo aproximar
desde já
"Estou indo embora!"
.
Você só pensa em grana (Zeca Baleiro)

Você só pensa em grana meu amor
Você só quer saber
Quanto custou a minha roupa
Custou a minha roupa
Você só quer saber quando que eu vou
Trocar meu carro novo
Por um novo carro novo
Um novo carro novo meu amor
Você rasga os poemas que eu te dou
Mas nunca vi você rasgar dinheiro
Você vai me jurar eterno amor
Se eu comprar um dia o mundo inteiro
Quando eu nasci um anjo só baixou
Falou que eu seria um executivo
E desde então eu vivo com meu banjo
Executando os rocks do meu livro
Pisando em falso com meus panos quentes
Enquanto você ri no seu conforto
Enquanto você me fala entre dentes
Poeta bom meu bem poeta morto.
Poeta bom meu bem poeta morto.
Poeta bom meu bem poeta morto.
Você só quer saber
Quanto custou a minha roupa
Custou a minha roupa
Você só quer saber quando que eu vou
Trocar meu carro novo
Por um novo carro novo
Um novo carro novo meu amor
Você rasga os poemas que eu te dou
Mas nunca vi você rasgar dinheiro
Você vai me jurar eterno amor
Se eu comprar um dia o mundo inteiro
Quando eu nasci um anjo só baixou
Falou que eu seria um executivo
E desde então eu vivo com meu banjo
Executando os rocks do meu livro
Pisando em falso com meus panos quentes
Enquanto você ri no seu conforto
Enquanto você me fala entre dentes
Poeta bom meu bem poeta morto.
Poeta bom meu bem poeta morto.
Poeta bom meu bem poeta morto.
.
"Poeta bom meu bem poeta morto."
.
segunda-feira, 19 de março de 2007
sai da janela(Giovanni Lucas)

ela que me apareceu na janela
vestida de branco
ou de quase nada
jogou de lado o cabelo
pra me mostrar
um sorriso na cara
menina rara
ou dependurada
em minha memória
seu jeito de graça
não era tão sóbria
muito atraente
não acomodada
um pouco grosseira
mas tem gosto doce
não sei o que faço
se és meu passado
não sei se contento
ou se calo e me vou
é que o passado
é feito de traços
que podem ser mais
belos agora
cuidado menina
do resto tudo passa
eu amo as noites
mas sobrevivo
sem elas
vestida de branco
ou de quase nada
jogou de lado o cabelo
pra me mostrar
um sorriso na cara
menina rara
ou dependurada
em minha memória
seu jeito de graça
não era tão sóbria
muito atraente
não acomodada
um pouco grosseira
mas tem gosto doce
não sei o que faço
se és meu passado
não sei se contento
ou se calo e me vou
é que o passado
é feito de traços
que podem ser mais
belos agora
cuidado menina
do resto tudo passa
eu amo as noites
mas sobrevivo
sem elas
quinta-feira, 8 de março de 2007
A carta que não foi mandada (Vinícius de Moraes)

Paris, outono de 73
Estou no nosso bar mais uma vez
E escrevo pra dizer
Que é a mesma taça e a mesma luz
Brilhando no champanhe em vários tons azuis
No espelho em frente eu sou mais um freguês
Um homem que já foi feliz, talvez
E vejo que em seu rosto correm lágrimas de dor
Saudades, certamente, de algum grande amor
Mas ao vê-lo assim tão triste e só
Sou eu que estou chorandoLágrimas iguais
E, a vida é assim, o tempo passa
E fica relembrando
Canções do amor demais
Sim, será mais um, mais um qualquer
Que vem de vez em quando
E olha para trás
É, existe sempre uma mulher
Pra se ficar pensando
Nem sei... nem lembro mais
in Poesia completa e prosa: "Cancioneiro"
confira:http://www.viniciusdemoraes.com.br/
Estou no nosso bar mais uma vez
E escrevo pra dizer
Que é a mesma taça e a mesma luz
Brilhando no champanhe em vários tons azuis
No espelho em frente eu sou mais um freguês
Um homem que já foi feliz, talvez
E vejo que em seu rosto correm lágrimas de dor
Saudades, certamente, de algum grande amor
Mas ao vê-lo assim tão triste e só
Sou eu que estou chorandoLágrimas iguais
E, a vida é assim, o tempo passa
E fica relembrando
Canções do amor demais
Sim, será mais um, mais um qualquer
Que vem de vez em quando
E olha para trás
É, existe sempre uma mulher
Pra se ficar pensando
Nem sei... nem lembro mais
in Poesia completa e prosa: "Cancioneiro"
confira:http://www.viniciusdemoraes.com.br/
domingo, 4 de março de 2007
bem vindo(Giovanni Lucas)

TODAS AS CRIANÇAS E OS SERES:
BEM VINDOS!
TODOS OS SERES BEM-VINDOS
E TODAS AS CRIANÇAS
E TUDO O QUE É VÁLIDO
E TODA A INDECÊNCIA
E TODA A INGENUIDADE
SEJAM BEM-VINDOS
TODOS OS VOTOS DE ESPERANÇA
TODA A FUMAÇA
E A TRISTEZA PERDIDA
TODA CRIANÇA QUE ANDA
TODO SORRISO
QUE APAREÇA
MESMO EM VÃO
SEJAM BEM VINDOS
TODO O CAMINHO PERCORRIDO
AQUELE QUE VEM E QUE VAI
SEJAM BEM VINDOS
EM AMEAÇA
NENHUM SERÁ IMPEDIDO
DE ENTRAR
TODOS ESTES
VÃO E VEM
NÃO SERÃO BEM VINDOS
NÃO SERÃO E NÃO
BEM VINDO
SEJAM!
TODOS E NO FIM
APÓS O ÚLTIMO PASSO
O ÚLTIMO PISO
O ÚLTIMO SORRISO
FECHE A PORTA
E DEIXE-ME IR...
BEM VINDOS!
TODOS OS SERES BEM-VINDOS
E TODAS AS CRIANÇAS
E TUDO O QUE É VÁLIDO
E TODA A INDECÊNCIA
E TODA A INGENUIDADE
SEJAM BEM-VINDOS
TODOS OS VOTOS DE ESPERANÇA
TODA A FUMAÇA
E A TRISTEZA PERDIDA
TODA CRIANÇA QUE ANDA
TODO SORRISO
QUE APAREÇA
MESMO EM VÃO
SEJAM BEM VINDOS
TODO O CAMINHO PERCORRIDO
AQUELE QUE VEM E QUE VAI
SEJAM BEM VINDOS
EM AMEAÇA
NENHUM SERÁ IMPEDIDO
DE ENTRAR
TODOS ESTES
VÃO E VEM
NÃO SERÃO BEM VINDOS
NÃO SERÃO E NÃO
BEM VINDO
SEJAM!
TODOS E NO FIM
APÓS O ÚLTIMO PASSO
O ÚLTIMO PISO
O ÚLTIMO SORRISO
FECHE A PORTA
E DEIXE-ME IR...
terça-feira, 27 de fevereiro de 2007
o catador (Manoel de Barros)

Um homem catava pregos no chão.
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado,
ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais - o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônios inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar
pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter.
Tratado geral das grandezas do ínfimo, Editora Record - 2001, pág. 43
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado,
ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais - o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônios inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar
pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter.
Tratado geral das grandezas do ínfimo, Editora Record - 2001, pág. 43
segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007
sábado, 17 de fevereiro de 2007
sem título (e.e.cummings)

nalgum lugar em que eu nunca estive,alegremente além
de qualquer experiência,teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto
teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos,nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente,misteriosamente)a sua primeira rosa
ou se quiseres me ver fechado,eu e
minha vida nos fecharemos belamente,de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;
nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade:cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira
(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre;só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva,tem mãos tão pequenas
( tradução: Augusto de Campos )
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007
atroz ( Giovanni Lucas)
quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007
Não-coisa(Ferreira Gullar)



O que o poeta quer dizer
no discurso não cabe
e se o diz é pra saber
o que ainda não sabe.
Uma fruta uma flor
um odor que relume...
Como dizer o sabor,
seu clarão seu perfume?
Como enfim traduzir
na lógica do ouvido
o que na coisa é coisa
e que não tem sentido?
A linguagem dispõe
de conceitos, de nomes
mas o gosto da fruta
só o sabes se a comes
só o sabes no corpo
o sabor que assimilas
e que na boca é festa
de saliva e papilas
invadindo-te inteiro
tal do mar o marulho
e que a fala submerge
e reduz a um barulho,
um tumulto de vozes
de gozos, de espasmos,
vertiginoso e pleno
como são os orgasmos
No entanto, o poeta
desafia o impossível
e tenta no poema
dizer o indizível:
subverte a sintaxe
implode a fala, ousa
incutir na linguagem
densidade de coisa
sem permitir, porém,
que perca a transparência
já que a coisa é fechada
à humana consciência.
O que o poeta faz
mais do que mencioná-la
é torná-la aparência
pura — e iluminá-la.
Toda coisa tem peso:
uma noite em seu centro.
O poema é uma coisa
que não tem nada dentro,
a não ser o ressoar
de uma imprecisa voz
que não quer se apagar
— essa voz somos nós.
Poema extraído dos “Cadernos de Literatura Brasileira”, editados pelo Instituto Moreira Salles — São Paulo, nº 6, setembro de 1998, pág. 77.
no discurso não cabe
e se o diz é pra saber
o que ainda não sabe.
Uma fruta uma flor
um odor que relume...
Como dizer o sabor,
seu clarão seu perfume?
Como enfim traduzir
na lógica do ouvido
o que na coisa é coisa
e que não tem sentido?
A linguagem dispõe
de conceitos, de nomes
mas o gosto da fruta
só o sabes se a comes
só o sabes no corpo
o sabor que assimilas
e que na boca é festa
de saliva e papilas
invadindo-te inteiro
tal do mar o marulho
e que a fala submerge
e reduz a um barulho,
um tumulto de vozes
de gozos, de espasmos,
vertiginoso e pleno
como são os orgasmos
No entanto, o poeta
desafia o impossível
e tenta no poema
dizer o indizível:
subverte a sintaxe
implode a fala, ousa
incutir na linguagem
densidade de coisa
sem permitir, porém,
que perca a transparência
já que a coisa é fechada
à humana consciência.
O que o poeta faz
mais do que mencioná-la
é torná-la aparência
pura — e iluminá-la.
Toda coisa tem peso:
uma noite em seu centro.
O poema é uma coisa
que não tem nada dentro,
a não ser o ressoar
de uma imprecisa voz
que não quer se apagar
— essa voz somos nós.
Poema extraído dos “Cadernos de Literatura Brasileira”, editados pelo Instituto Moreira Salles — São Paulo, nº 6, setembro de 1998, pág. 77.
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007
ai garupa (arnaldo baptista)
é uma cançãoque fala de você
que me reduz o traço
que me arrebenta o aço
eu passo,
passo pelo corredor numa motocicleta
rasgando todo veludo vermelho do chão
sai chão, sai medo
vai giro vai
a velocidade é a sobremesa
da noitada vulgar
de fazer amor na areia
ai garupa,
deixa essa estrada passar
tenho medo eu cuspo em tudo
só não cuspo no chão e no violão
se me agrupo
deixa essa estrada passar
nosssos elmos vasos comunicantes
podem um dia se beijar
eu passo,
passo pelo corredor numa motocicleta
rasgando todo veludo vermelho do chão
vai, garupa
deixa essa estrada passar
se o momento já se foi
eu ainda não acabei.
_faixa n. 10 do cd Let it Bed de Arnaldo Baptista (2002)
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